segunda-feira, 31 de março de 2014

SEM TÍTULO












tantas vezes te vou buscar ao fundo dos tempos
quando dizias apenas "Ainda bem que vieste!"
olho-te agora na sombra do que foi tempo
nem meu nem teu
tempo somente



e sorrio docemente 
às rosas no chão






sexta-feira, 28 de março de 2014

DIVAGAÇÃO













Há textos de verdade. 
Uns em que a verdade sorri, outros ainda que, em verdade, parecem ser verdade e não são.
Há também verdades que não vêm em textos. Mas há dias em que a verdade poisa o pé no texto, sentir de uma verdade. E, nesses dias, a verdade reluz por ser tão verdadeira.
Na verdade, há verdades que se não podem esconder atrás de textos porque, mesmo sendo esses textos verdadeiros textos ou não, nunca deixam de ser verdades.







sexta-feira, 21 de março de 2014

num QUASE SONETO


























o traçado traçado por uma mão
riscando tosca o papel irregular
é a inconsciência podre da armação
da vida que se perde em cada olhar

e o mundo corrompido pela existência
risca  o passado o futuro o presente
na sensibilidade vestida de demência
da realidade crua de um crente

morre-se vive-se em segundos
veste-se o luto do respirar
no espaço em que somos vagabundos

é o pesadelo de não sabermos voar
de procurarmos obstinados nos mundos
o mundo que não podemos encontrar







sexta-feira, 14 de março de 2014

DIZ - me









escuta

e depois diz-me
que saudade traz de mim a claridade
nos mirantes empedrados das folhas
diz-me
que calma é esta que se me quebra
no navegar de barcos para o ocaso

diz-me

que os canaviais são cansaços 
nas margens das nuvens 
ou nuas pedras num charco 
ou ascendentes tábuas desniveladas 


diz-me

que és ainda tu
nas notas soltas em que me oiço

no prelúdio de Chopin em mi(m) menor




















terça-feira, 11 de março de 2014

OS PÁSSAROS - 3ª parte









Inebriada, pintou então um pássaro como nunca da imaginação dos seus dedos e do coração saíra nenhum.  Foi só depois de lhe ter terminado as delicadas e frágeis asas que ela o viu levantar voo e fugir do papel branco onde tinha sossegado, enquanto inacabado.

Amarrotou desesperada a folha. Deitou-a fora. Abriu todos os cadernos e livros onde dormiam os antigos pássaros guardados e gritou-lhes que voassem para longe e não regressassem mais.



................................................



Nunca mais desenhou nem pintou pássaros.

Agora, aprisiona-os em panos onde, entre rendas e linhas de seda, os adormece no movimento da agulha. 


Borda-os em segredo.




Pode, enfim, acariciá-los... sem que lhe fujam. 










Mas ainda hoje lhe chamam "a Menina que desenhava pássaros"... 

















sexta-feira, 7 de março de 2014

OS PÁSSAROS - 2ª parte







À medida que crescia, as paredes habituaram-se por causa dos ralhos, quase sussurrados, da mãe a não serem incomodadas por bandos de aves silenciosas e de asas abertas.

Começou, depois, a pressentir o traço mais certo e os pássaros mais pássaros.
Por essa altura, desenhava-os já em cadernos ou nas margens das páginas dos livros. Deixava-os ficar ali, ora poisados ora voando, no desejo imenso de poderem ser sonhados.

Quando se tornou adulta, tempos houve em que se esqueceu dos pássaros. Longínquos e adormecidos, tinha-se distanciado deles.

Uma tarde, quase ao anoitecer e pouco tempo depois de ter visto um ninho cair e se desfazer no chão, eles voltaram a esvoaçar em seu redor. Primeiro na cabeça, depois numa inquietação nos dedos e, por último, num compartimento tranquilo do coração. 
Os pincéis desataram todos os nós que tinham aprisionado os pássaros e, um pouco envergonhados e hesitantes, moveram-se numa vertigem de tons esbatidos e definidos, de sombras e delicadas claridades, demasiadamente  leves e luminosas, nas penas das asas.






Voltara a ser menina, voltara a encontrar os seus pássaros e a sonhar.


( continua )






terça-feira, 4 de março de 2014

OS PÁSSAROS - 1ª parte









Sempre ouvira dizer que chegara, entre laços e rendas, no bico longo de uma cegonha rosada numa noite  de verão.




Talvez por isso se extasiava quando os seus olhitos, desmesuradamente observadores, percebiam um pássaro poisado no gradeamento de ferro, que abraçava, desde que lá tinha sido colocado, o pátio, onde um grande tanque deixava que lhe baloiçassem as águas sempre que as criadas lavavam a roupa, esfregando na pedra os lençóis e as toalhas que, de seguida, iam corar, ensaboadas, sobre o chão verde de relva.

Sempre ouvira dizer o que lhe diziam e, por acreditar, quando encontrava um lápis, rombo ou afiado, desenhava um rabisco na primeira parede. Então, a avó gargalhava cúmplice e embebecida, a mãe ralhava baixinho para não assustar o pássaro e este, de asas abertas, desaparecia levado e lavado por um pano. 
Uma mancha húmida na parede era o que restava de um pássaro. 

Um pássaro que não voara.







( continua )









domingo, 2 de março de 2014

INQUIETAÇÃO











Não sei, mas há dias em que acordamos com um enorme peso no peito. 
Parece que, logo pela manhã, as forças do dia se unem para nos amarfanhar. É o despertador que toca à hora certa sem se importar com os nossos sonos; é o termos de nos levantar com o frio  lá fora; é a vida que nos espera e é, como hoje, este aperto no peito. Parece que, repentinamente, um nevoeiro imenso e perigoso se aproxima de nós ou nós nos aproximamos dele... 
A sensação é desconfortante, sufoca e nós vamo-nos deixando mergulhar nesse cinzentismo inexplicável. 
Dentro de nós há ecos que nos ensurdecem e as planícies que tentamos construir transformam-se em abruptas e desafiadoras montanhas. E sentimo-nos pequeninos como ratos, indefesos como cordeiros no ritual do sacrifício, anestesiados pelo que se sente. 
O que está mal connosco? O que está mal com os outros? 
Há um traço de união entre o estado dos outros e o nosso, só que não sei como entendê-lo, o que fazer para despejar de mim esta inquietude sem nome que me amargura. 











sábado, 22 de fevereiro de 2014

FLORES








Saltarico como o bilro sobre a almofada, porque as mãos do tempo não param.
Faço e refaço-me, sobre o papel desenhado, nos fios torcidos e entrançados que me subjugam em torno de alfinetes.
Por isso, quando me vejo, defino-me somente na orla reforçada por onde me prendem.
Esqueço-me que os outros me vêem e me sentem. Esqueço-me de tanta coisa, Deus meu! 
Ontem,  fizeram-me lembrar de quem me esqueci.

Ofereceram-me flores, num gesto doce e calmo e eu, eu chorei ao perceber que existo.













segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

LAÇOS E RENDAS












Nasci de um laço entre a serra e o mar. 

Um laço de amor. 

Por ele desci as encostas arredondadas da estrela desenhada no horizonte... sempre longe.
Não desejava limiares. Parti, desbravando-me. 

Procurei o mar. Vesti-o em ondulações drapeadas na seda azul de infinitos. Senti-o, acariciante e terno... num crescendo.
Beija-me agora os pés num movimento manso, inconsequente, húmido, trazendo-me gaivotas bordadas no tule finíssimo e esvoaçante da espuma das rendas.




Nós? 
Só o solo inculto os preserva, 
entre a serra e o mar... 
sem nós.