Sempre ouvira dizer que chegara, entre laços e rendas, no bico longo de uma cegonha rosada numa noite de verão.
Talvez por isso se extasiava quando os seus olhitos, desmesuradamente observadores, percebiam um pássaro poisado no gradeamento de ferro, que abraçava, desde que lá tinha sido colocado, o pátio, onde um grande tanque deixava que lhe baloiçassem as águas sempre que as criadas lavavam a roupa, esfregando na pedra os lençóis e as toalhas que, de seguida, iam corar, ensaboadas, sobre o chão verde de relva.
Sempre ouvira dizer o que lhe diziam e, por acreditar, quando encontrava um lápis, rombo ou afiado, desenhava um rabisco na primeira parede. Então, a avó gargalhava cúmplice e embebecida, a mãe ralhava baixinho para não assustar o pássaro e este, de asas abertas, desaparecia levado e lavado por um pano.
Uma mancha húmida na parede era o que restava de um pássaro.
Um pássaro que não voara.
( continua )