sábado, 17 de maio de 2014

fotoGRAFIAS









desci as escadas na rotina desvairada e atravessei o pequeno átrio em busca do sol que fazia lá fora, amarelo de outono. 

um grupo de garotos do 5º ano empurrava-se contra as paredes laterais, socava-se, gritava. 
parei. a retina, em esforço, tentava captar caras e movimentos. 
tudo desfocado. 
mais rápida e perfeitamente nítida, a minha voz deixou um ralhete e a ordem para irem brincar, mas brincar a sério, para outro lado. o ponteiro galopava, devorando segundos e eu na indecisão de rodar ou não a objetiva e me aproximar deles, que me não viam, que me não ouviam. a mão estendeu-se-me e agarrou o braço de um que me olhou como se, à sua frente, estivesse a vampira com que eles são tu-lá-tu-cá. repeti a ordem. tornei a repetir e eles sem perceberem que lhes falava. 
em que película estariam aquelas cabeças? 
o ponteiro galopava e devorava já minutos. um dos rapazes começou a correr para a esquina do pavilhão. carreguei no botão - uma mão e depois seis ou sete vultos desfocados e uma voz que dizia em legenda à fotografia esta tem a mania que manda!
avancei uns quantos passos, fiz zoom, mas o ângulo não era o propício. 

prossegui à procura do sol que me esperava de raios abertos, sorridentemente quentes. imobilizei-me e fiquei a sorrir para a lente da máquina, programada para mim.
a sombra de uma árvore juntou-se à minha. só as sombras, não alongadas, se desenhavam no chão... 
os meus momentos! os momentos de silêncio fotográfico não registáveis... como me reconfortam e me devolvem as cores! nítida esta imagem, perfeita, na imperfeição do objeto fotografado.


volto a entrar no pavilhão decidida a subir as escadas e a ir até à sala dos professores, onde não iria tirar nenhuma fotografia, porque todas elas seriam iguais, porque quase todos querem ficar bem na fotografia e se esquecem que também há que saber manter o diafragma da máquina fechado às obsessões cratianas.

mas não subi as escadas. uns gritos entraram-me pelos orifícios da máquina e ficaram a retinir dentro dela. tremida ficou a imagem de quatro miúdas que a pontapé e encontrões se aproximavam do simpático e paciente "Moedeiro".
de novo, a retina foi mais lenta que a voz. tinha perdido os raios de sol que trazia plenos de silêncio. parem lá com isso, se fazem favor! a fotografia ficou imóvel, suspensa na memória e eu fui à procura da outra anterior onde havia ainda brilhos a rechearem as minhas células. não tive tempo de a rever. o clique captou-me de cara espantada e de olhar triste pendurado no corrimão das escadas, depois de ter ouvido ela é parva!

parei e cliquei de novo. fui apanhada a tentar subir as escadas com esforço. o vulto de um ex-aluno, agora no 12º ano, sorria-me com dentes desarmados de arames não ligue, professora, isto está de doidos! olhei-o e articulei chega ao po...a máquina disparou-se mesmo sem lhe premir o botão. ... (se) der! continua irónica, professora! já lá estás, Filipe, no poder, já lá estás! 
calaram-se os disparos, enquanto alguns professores desciam a escada a rir, felizes porque se encaixavam no centro da película e das metas curriculares. não os fotografei. virei a objetiva para mim, estendi o braço até onde pude e disparei.

já em casa, revi as fotografias. a última, a minha, não existia. o sistema não me permitia ficar por causa dos cortes orçamentais onde não cabem a disciplina, a resiliência, a educação e, sobretudo, o ensinar.






GRAFIAS A PRETO










quarta-feira, 30 de abril de 2014

CONVERSA ÍNTIMA








- Como andas?
- Passarinhando, navegando, rasgando....
- E não te cansas?
- De quê?... ah!... sim e não ou, se preferires, não e sim...
- Decide-te! Não brinques! Define-te!
- É isso que queres? É tão fácil! Difícil seria não me saber se não houvesse este silêncio.












sábado, 26 de abril de 2014

EM PASSOS MIÚDOS

















Cada dia é mais uma tela que me abraça e convida.
Traiçoeiros abraços e palavras que me conduzem a um campo vazio.
Porque estará vazio esse espaço-cenário para onde caminho?
Recorto-te com o olhar no horizonte, linha constante que me separa de mim...

O que haverá depois dessa abstração? 

E quem estará à minha espera no cenário... para além das árvores?





quarta-feira, 23 de abril de 2014

E







sei dos cavalos aprisionados nas cristas rendilhadas pelo desespero ácido

e
sei da alma esventrada da revolta dos que serram os punhos sem trabalho

e  
sei que perante 

os voos planados dos urubus 
o riso sarcástico das hienas
os insatisfeitos abutres
os ululantes chacais 


« há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz NÃO! »










segunda-feira, 21 de abril de 2014

PENsANDO








quando o sol caminha baixo
a roçar quase o luar
nem o mar nos beija
nem a terra nos quer