Mostrar mensagens com a etiqueta estórias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta estórias. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A JÓIA








Foi quando fez quinze anos que a tia FlorBela lhe resolveu oferecer aquela jóia. Sempre lha vira poisada nas golas que lhe compunham o pescoço enrugado e flácido. Era pesada e algumas ficavam tão derreadas com o alfinete que se interrogava, muitas vezes, se a tia não teria nascido já com ele.
Quando, naquela tarde, o viu na mão estendida e trémula da tia e lhe ouviu as palavras, ela sentiu, na sua estrutura de adolescente, que a vida lhe iria ser diferente.
A seu lado, a mãe titubeou uma reverência e um "há de usá-lo sempre", que ela não compreendeu no meio da euforia que, conjuntamente com a das amigas, havia despenteado o jardim.

A vida correu, deixou de usar os soquetes brancos e deu por si enfiada num vestido de seda rosa, comprido, pronta para o seu baile de finalistas. Tinha desenhado ela mesmo o vestido, passara tardes na modista, entre provas e alinhavos e alfinetes e um "vire para aqui" e, "agora, vire para ali", "assim, assenta melhor mais larguito aqui no peito". 

O espelho de meio corpo devolvia-lhe uma imagem nova de que gostou. Imaginou-se Cinderela, rodopiou e sorriu feliz para a mãe que, de mão emocionada e trémula, lhe entregou o alfinete da tia FlorBela.
O sorriso desapareceu-lhe do rosto, pegou nele como se pegasse num bebé recém-nascido e, desajeitadamente receosa, colocou-o na alça esquerda do vestido.




(continua)


terça-feira, 11 de março de 2014

OS PÁSSAROS - 3ª parte









Inebriada, pintou então um pássaro como nunca da imaginação dos seus dedos e do coração saíra nenhum.  Foi só depois de lhe ter terminado as delicadas e frágeis asas que ela o viu levantar voo e fugir do papel branco onde tinha sossegado, enquanto inacabado.

Amarrotou desesperada a folha. Deitou-a fora. Abriu todos os cadernos e livros onde dormiam os antigos pássaros guardados e gritou-lhes que voassem para longe e não regressassem mais.



................................................



Nunca mais desenhou nem pintou pássaros.

Agora, aprisiona-os em panos onde, entre rendas e linhas de seda, os adormece no movimento da agulha. 


Borda-os em segredo.




Pode, enfim, acariciá-los... sem que lhe fujam. 










Mas ainda hoje lhe chamam "a Menina que desenhava pássaros"... 

















sexta-feira, 7 de março de 2014

OS PÁSSAROS - 2ª parte







À medida que crescia, as paredes habituaram-se por causa dos ralhos, quase sussurrados, da mãe a não serem incomodadas por bandos de aves silenciosas e de asas abertas.

Começou, depois, a pressentir o traço mais certo e os pássaros mais pássaros.
Por essa altura, desenhava-os já em cadernos ou nas margens das páginas dos livros. Deixava-os ficar ali, ora poisados ora voando, no desejo imenso de poderem ser sonhados.

Quando se tornou adulta, tempos houve em que se esqueceu dos pássaros. Longínquos e adormecidos, tinha-se distanciado deles.

Uma tarde, quase ao anoitecer e pouco tempo depois de ter visto um ninho cair e se desfazer no chão, eles voltaram a esvoaçar em seu redor. Primeiro na cabeça, depois numa inquietação nos dedos e, por último, num compartimento tranquilo do coração. 
Os pincéis desataram todos os nós que tinham aprisionado os pássaros e, um pouco envergonhados e hesitantes, moveram-se numa vertigem de tons esbatidos e definidos, de sombras e delicadas claridades, demasiadamente  leves e luminosas, nas penas das asas.






Voltara a ser menina, voltara a encontrar os seus pássaros e a sonhar.


( continua )






terça-feira, 4 de março de 2014

OS PÁSSAROS - 1ª parte









Sempre ouvira dizer que chegara, entre laços e rendas, no bico longo de uma cegonha rosada numa noite  de verão.




Talvez por isso se extasiava quando os seus olhitos, desmesuradamente observadores, percebiam um pássaro poisado no gradeamento de ferro, que abraçava, desde que lá tinha sido colocado, o pátio, onde um grande tanque deixava que lhe baloiçassem as águas sempre que as criadas lavavam a roupa, esfregando na pedra os lençóis e as toalhas que, de seguida, iam corar, ensaboadas, sobre o chão verde de relva.

Sempre ouvira dizer o que lhe diziam e, por acreditar, quando encontrava um lápis, rombo ou afiado, desenhava um rabisco na primeira parede. Então, a avó gargalhava cúmplice e embebecida, a mãe ralhava baixinho para não assustar o pássaro e este, de asas abertas, desaparecia levado e lavado por um pano. 
Uma mancha húmida na parede era o que restava de um pássaro. 

Um pássaro que não voara.







( continua )