terça-feira, 4 de março de 2014

OS PÁSSAROS - 1ª parte









Sempre ouvira dizer que chegara, entre laços e rendas, no bico longo de uma cegonha rosada numa noite  de verão.




Talvez por isso se extasiava quando os seus olhitos, desmesuradamente observadores, percebiam um pássaro poisado no gradeamento de ferro, que abraçava, desde que lá tinha sido colocado, o pátio, onde um grande tanque deixava que lhe baloiçassem as águas sempre que as criadas lavavam a roupa, esfregando na pedra os lençóis e as toalhas que, de seguida, iam corar, ensaboadas, sobre o chão verde de relva.

Sempre ouvira dizer o que lhe diziam e, por acreditar, quando encontrava um lápis, rombo ou afiado, desenhava um rabisco na primeira parede. Então, a avó gargalhava cúmplice e embebecida, a mãe ralhava baixinho para não assustar o pássaro e este, de asas abertas, desaparecia levado e lavado por um pano. 
Uma mancha húmida na parede era o que restava de um pássaro. 

Um pássaro que não voara.







( continua )









30 comentários:

  1. Isto não se faz, fiquei tão curioso!

    Abraço grande

    ( e também um pouco inquieto)

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    1. Isto vai ser pior que uma telenovela, Argos! Prepara-te e não te 'inquietes' :))

      Beijinho

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  2. Curioso...quem não riscou uma parede, para manifestar a sua arte pictórica???

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  3. Um pássaro que não voara, mas que em sonhos livre era!

    Um beijinho e estou presente nesta nova jornada...

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    1. Julgo que, nessa altura, a menina ainda não via nos pássaros essa ideia de liberdade. Talvez gostasse das cores. :)

      Obrigada e um beijinho

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  4. um dia esse pássaro voa para fora do esboço...

    :)

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    1. Ah, a curiosidade, Carlos!!! Tens de esperar pelo próximo capítulo :)) Espero é não te desiludir...

      Beijinho

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  6. Um pássaro que não voa não cumpre o seu destino.
    Aguardemos.
    Entretanto, ...

    Beijinho.

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    1. Todos cumprem o seu destino, GL, voando ou não...

      Beijinho :)

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  7. Acho que esta estória vai ser surpreendente como são todas as estórias de pássaros :)

    beijinho

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    1. Depende dos pássaros. Podem conseguir surpreender-nos ou...
      E mais não digo. :)

      Beijinho

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  8. pássaros de asas cortadas?

    também as asas renascem das cinzas...

    beijo

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    1. Não sei, não. Mas se tu o dizes, vou acreditar. :)

      Beijinho, heretico

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  9. Ele não podia ficar preso à parede. Tinha de voar. :)

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  10. Texto lindíssimo! (como sempre aliás...)
    Os pássaros voam e as pessoas com alma de pássaro também...

    Bons voos, laços e rendas...

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    1. Obrigada, Graça. Alma de pássaro... acho que tenho. :))

      Voarei, se conseguir. :)

      Beijinho

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  11. Bom dia,
    Pássaro que não teve o direito à sua liberdade, foi levado e lavado por um pano desaparecia levado e lavado por um pano.
    Gostei das palavras com compõem do belo texto.
    Abraço
    ag

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    1. Obrigada, António. Os pássaros, como as pessoas, surpreendem-nos... ainda. :)

      Beijinho

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  12. OLá, linda!

    O texto é tão bonito como a menina que o acompanha.

    Abraço de matar saudades, rrss

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    1. Computador arranjado e a trabalhar bem pelo que parece, São.

      O texto é uma 'estorieta' de trazer por casa. :))

      Beijinho e obrigada.

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  13. O que faço com tempo, enquanto não chega a próxima parte?
    Beijinho

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    1. Talvez tentares fazer uma malhita, que os laços e as rendas já são minhas... e os nós não os dou a ninguém, que só atrapalham. :))

      Beijinho, Maria do Sol

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  14. Respostas

    1. Talvez a última coisa a que nos poderemos agarrar...

      Beijinho, Pérola

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  15. Eu não gosto de pássaros presos...que bom que ele voava!
    Bjs

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    1. Voava sempre aprisionado no pano molhado que o apagava, Lila...

      Beijinho

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